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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Alunos estressados, ansiosos e depressivos recorrem a centros de saúde mental de universidades americanas

Estudante levada às pressas a uma emergência psiquiátrica nunca é rotina, mas quando a Stony Brook University registrou três idas em apenas três dias, isso não foi surpresa para Jenny Hwang, diretora de aconselhamento psicológico.
Era o semestre do outono, uma época de estresse crescente com a chegada das provas finais e com a proximidade do recesso de fim de ano, por si só uma ansiedade.

Numa tarde de quinta-feira, um calouro que vinha tendo um mau desempenho acadêmico postou pensamentos suicidas no Facebook.

Se eu desaparecesse, ele escreveu, alguém iria notar? Um estudante alarmado contou aos funcionários da faculdade no dormitório, que chamaram Hwang fora do horário do expediente.

Ela entrou em contato com a polícia do campus. Policiais escoltaram o aluno até o hospital psiquiátrico do condado.

Houve mais dois fatos semelhantes naquele final de semana.

Sábado à noite, um aluno ficou preocupado com um amigo que tinha receita para o medicamento Xanax, que é ansiolítico, e acabou tomando um punhado de cápsulas de uma só vez.

No domingo, uma supervisora dos corredores de residência, Gina Vanacore, enviou uma atualização via BlackBerry para Hwang, que promove programas de treinamento para alunos e funcionários sobre intervenções para evitar o suicídio.

"Se você não fosse tão boa em colocar esses observadores", escreveu Vanacore, "nós teríamos de dormir aqui no fim de semana".

A Stony Brook é uma típica faculdade americana de hoje em dia.

Pesquisas nacionais mostram que quase metade dos alunos que visitam centros de aconselhamento psicológico lida com sérias doenças mentais, mais que o dobre de uma década atrás.

Mais alunos estão tomando medicamentos psiquiátricos e há mais emergências que exigem ação imediata.

"É tão diferente de como as pessoas estereotipavam o conceito de aconselhamento universitário.

Ou da década de 1970, quando os alunos chegavam com crises existenciais: Quem sou eu?", disse Hwang, cuja equipe de 29 pessoas inclui psiquiatras, psicólogos clínicos e assistentes sociais.

"Agora eles chegam trazendo histórias de vida envolvendo trauma extenso, um histórico de doença mental, transtornos alimentares, automutilação, uso de álcool e drogas".

Uma pesquisa recente feita pela Associação Americana de Aconselhamento Universitário descobriu que a maioria dos estudantes busca ajuda para problemas normais pós-adolescência, como decepção amorosa e crise de identidade.

Porém, 44% deles possuem sérios transtornos psicológicos, contra 16% em 2000, e 25% tomam medicamentos psiquiátricos, contra 17% há dez anos.

Os transtornos mais comuns de hoje: depressão, ansiedade, pensamentos suicidas, abuso de álcool, transtornos de atenção, automutilação e transtornos alimentares.

A Stony Brook, uma ramificação academicamente exigente da State University of New York (índice de admissão de 40%), enfrenta desafios de saúde mental típicos de uma grande universidade pública.

Ela possui 9.500 estudantes residentes e 15 mil que se deslocam até o campus.

O corpo discente, altamente diversificado, inclui muitas pessoas que são as primeiras da família a frequentar uma universidade e carregam consigo uma intensa pressão para terem bom desempenho, muitas vezes nas áreas de engenharia ou ciências.

Um grupo de terapia chamado Black Women and Trauma (mulheres negras e trauma), criado no semestre passado, incluiu participantes da África que sofriam de transtorno do estresse pós-traumático de violência na juventude.

A Stony Brook tem notado um acentuado crescimento na demanda por aconselhamento psicológico - 1.311 alunos começaram o tratamento no último ano acadêmico, um aumento de 21% em relação ao ano anterior.

Ao mesmo tempo, pressões orçamentárias da New York State obrigaram uma redução de 15% nos serviços de saúde mental ao longo de três anos.

Perto do grêmio estudantil, no centro do campus, o prédio do Centro de Saúde do Estudante data dos dias em que um dos problemas de saúde mais sérios dos alunos era mononucleose.

Porém, a contratação, há três anos, de Judy Espósito, assistente social com experiência em aconselhamento psicológico a viúvas do 11 de setembro, para iniciar uma unidade de triagem foi um sinal da nova realidade em saúde mental estudantil.

Às 9h da manhã de uma terça-feira, após o fim de semana agitado do campus, Espósito passou pelo dispensador de higienizador de mãos na entrada da universidade quando notou dois colegas correndo em direção ao seu escritório.

Antes mesmo que ela tirasse o casaco, os alunos reportaram sobre uma aluna que tinha se cortado e expressado pensamentos suicidas.

A equipe de triagem de Espósito registra de 15 a 20 pedidos de ajuda por dia.

Após breves entrevistas, para a maioria dos alunos se agenda uma consulta mais longa com um psicólogo, que leva ao tratamento individual.

Um aluno em cada seis não se torna paciente, sendo indicado a outros departamentos da universidade, como aconselhamento acadêmico, ou a terapeutas fora do campus, caso seja necessária ajuda de longo prazo.

O aconselhamento no campus é gratuito.

Naquele dia, os alunos incluíam um jovem rapaz que se queixava de não ter amigos, sentindo-se deprimido.

Outro estudante disse ter dificuldades acadêmicas e temer que os pais descobrissem que ele bebe, sentindo-se desanimado.

Profissionais de um centro de saúde mental estão atentos ao seu próprio bem-estar.

Por esta razão, a equipe tinha planejado um almoço de final de ano.

Enquanto um peru era assado na cozinha que serve como sala de descanso, Espósito ajudava a esquentar o doce de batata doce, o recheio e a quiche que ela mesma tinha trazido.

Então Regina Frontino, assistente de triagem que recebe os alunos na recepção, entrou na cozinha para dizer que uma aluna tinha sido trazida por um amigo que temia que ela pensasse em se matar.

Espósito correu para o saguão.

Depois de uma breve conversa, ela soube que a aluna perturbada teria de ir ao hospital.

O centro de aconselhamento não tem a capacidade de receber alunos suicidas ou psicóticos durante a noite para observação ou administrar drogas poderosas para acalmá-los.

Ele faz com que os alunos sejam levados ao Stony Brook University Medical Center, quase na saída do campus de 405 hectares.

O hospital possui uma emergência psiquiátrica que funciona 24 horas por dia e atende a todo o contado de Suffolk.

"Eles não vão consertar o que está errado", disse Espósito, "mas naquele momento podemos garantir que ela está segura".

Ela chamou Tracy Thomas, conselheira de plantão, para acalmar a aluna, que chorava compulsivamente, enquanto telefonava para a emergência e informava a Hwang, que chamou a polícia do campus para transportar a jovem.

Apesar dos muitos agendamentos no livro de consultas dos conselheiros da Stony Brook, todas as evidências nacionais sugerem que muito mais alunos precisam de serviços de saúde mental.

Quarenta e seis por centro dos estudantes universitários disseram sentir que "as coisas são desanimadoras" pelo menos uma vez nos últimos 12 meses, e quase um terço deles esteve tão depressivo que teve dificuldade em realizar suas atividades, de acordo com uma pesquisa de 2009 da Associação Americana de Saúde Universitária.

Além disso, dos 133 estudantes suicidas reportados na pesquisa da Associação Americana de Aconselhamento Universitário com 320 instituições, de 2009, menos de 20 buscou ajuda no campus.

Alexandria Imperato, 23 anos, se lembra que, como caloura da Stony Brook, todos os seus amigos da escola falavam de como adoravam a faculdade, enquanto ela se sentia péssima.

Ela enfrentava problemas familiares e a pressão para se adaptar à faculdade.

"Você volta para casa para o jantar do dia de Ação de Graças e sua família pergunta ao seu irmão como vai o ratinho dele.

Para você, perguntam: 'O que vai fazer pelo resto de sua vida?'", disse Imperato. Ela soube que tinha depressão.

No final, acabou vencendo a doença com psicoterapia, Cymbalta e lítio.
Ela formou um capítulo na Stony Brook da Active Minds, um grupo nacional de prevenção ao suicídio baseado em campi universitários.

"Me senti muito melhor de encontrar outras pessoas", disse Imperato, que planeja ser enfermeira.

Recentemente, ela era um dos 24 alunos voluntários que usavam uma camiseta preta dizendo "Relaxe", que paravam pessoas no Centro de Atividades Estudantis durante o horário de almoço.

"Você gostaria de fazer um teste para depressão?", eles perguntavam, oferecendo uma prancheta com um formulário de uma página para todos os alunos que tiravam o fone de ouvido.

Os alunos marcavam os quadradinhos se tinham dificuldade de dormir, sentiam desânimo ou "sensação de inutilidade".

Eles recebiam uma oportunidade de falar em particular com um psicólogo num escritório ali perto. Dezesseis alunos concordaram em fazê-lo.

Uma aluna que disse "sim" a uma entrevista imediata com um conselheiro depois de preencher o teste para depressão era estudante do último ano de psicologia, do norte de New York.

Hwang percorreu o centro de aconselhamento para verificar os testes, e a jovem passou muito tempo conversando com ela, sem tirar o casaco xadrez e a mochila. "Não tenho mais motivação para as coisas", disse a aluna. "Este lugar me deprime o tempo todo".

Ela não sabia que os alunos podem ir ao centro de aconselhamento sem horário agendado. "Achei que tivesse de marcar uma hora", ela disse. "Agora vou vir".

© 2010 New York Times News Service
http://br.noticias.yahoo.com/s/03012011/84/mundo-alunos-estressados-ansiosos-depressivos-recorrem.htm

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Filhos de pais que cometem suicídio também estão em risco de sofrer desordens psiquiátricas

Autora: Barbara Boughton

Crianças com menos de 18 anos cujos pais cometeram suicídio tem 3 vezes mais chances de morrer por suicídio do que aquelas com parentes vivos, de acordo com um estudo coorte retrospectivo conduzido na Suécia.

O estudo foi o maior estudo que examinou os fatores de risco para suicídio e desordens psicológicas entre aqueles que são sobreviventes do suicídio parental, como prole de pais que morrem por doença ou acidentes. Esse resultado indica de que maneira um pai morre e a idade da criança no momento da morte, e esses fatores têm um grande impacto nos resultados psicológicos posteriores.

"O modo de morte dos pais — particularmente o suicídio— bem como o período de desenvolvimento ou idade da prole quando ocorreu o falecimento de um dos pais tinha um impacto a longo prazo nos resultados psicológicos.

Nosso estudo aponta para a importância da conscientização e a necessidade de monitoramento do risco para sintomas psiquiátricos adversos entre crianças que perdem seus pais em razão do suicídio e referindo jovens sobreviventes de suicídio dos pais para tratamento psiquiátrico se necessário,” disse o pesquisador, o Dr.Holly Wilcox, professor assistente epidemiologista psiquiátrico no Johns Hopkins Children’s Center in Baltimore, Maryland.

No estudo, os investigadores comparam suicídios, hospitalizações psiquiátricas e condenações por crimes violentos durante 30 anos em mais de 500.000 crianças suecas, e jovens adultos que perderam um dos pais para o suicídio doença ou acidente.

Esses resultados foram comparados com aqueles de 4 milhões de crianças e jovens adultos com pais vivos.O estudo descobriu que aqueles que perderam seus pais para o suicídio tinham um maior risco de hospitalização para todos os tipos de desordens psiquiátricas a tentativas de suicídio do que a prole de pais vivos (ratio de incidência [IRR], 1,3 – 1,9).

Crianças com menos de 13 anos que perderam os pais para doença não tiveram um risco aumentado para suicídio. Mas todas as crianças que experimentaram a morte de um dos pais tinham mais chances de necessitar de hospitalizações em razão de tentativas de suicídio, depressão, droga e uso de álcool, psicose, e desordens de personalidade do que a prole de parentes vivos (IRRs variando de 1.3 a 1,9 até a idade de 25 anos).

Os pesquisadores concluíram que o risco para suicídio e desordens psicológicas foi maior entre aqueles que experimentaram suicídio dos pais na infância ou adolescência. Aqueles que perderam seus pais para o suicídio como jovens adultos, não tinham um risco aumentado para o suicídio se comparados com aqueles que tinham pais vivos (IRR, 1,3; 95% e intervalo de confiança, 0,9 – 1,9).

Prole que perdeu um dos pais para o suicídio durante a infância também tinha mais chances de experimentar o uso de drogas e desordens psicóticas do que aqueles que perderam um dos pais para o suicídio durante o início da vida adulta (interação P = 0,04 e P = 0,04).

Apesar de aqueles que experimentaram a morte de um pai com menos de 26 anos tiveram um maior risco de ter convicções criminais violentas do que aqueles com parentes vivos (IRR, 1,2 – 1,6), o modo da morte não parecia fazer muita diferença se a prole estava convicta de um crime violento.

"Nós esperamos achar que os sobreviventes de suicídio tiveram um risco aumentado para convicções criminais violentas," disse o Dr. Wilcox. Esse resultado pode sugerir que os traços agressivos e impulsivos são menos ligados fortemente ao suicídio do que pesquisa anterior sugeriu apesar de convicções clínicas violentas são apenas uma medida de tais traços, ele adicionou.

Apesar de os resultados do estudo ser impressionantes, o Dr. Wilcox chama atenção para o fato que a taxa de suicídios completos em sobreviventes ainda é baixa — cerca de 3%. "Suicídio é um resultado bastante raro ate mesmo nessa população de risco," ela disse.

"O tamanho do estudo é tão substancial que os investigadores foram capazes de demonstrar alguns achados muito cruciais sobre a prole de um pai que comete o suicídio," comentou Matthew Biel, professor assistente e diretor de psiquiatria de crianças e adolescentes no Georgetown University Hospital, Washington, DC.

"O estudo dá forte evidência que o suicídio dos pais é um fator muito importante na saúde mental a longo prazo da prole, e os esforços necessitam ser realizados para identificar as intervenções mais efetivas que irão suportar o ajuste e o desenvolvimento a longo prazo de crianças e adolescentes com pais que cometeram suicídio,” ele disse.

O estudo teve algumas limitações importantes, contudo. Como foi conduzida na Suécia, que tem o tratamento de saúde universal e onde os níveis de renda são altos comparados com aqueles em outros países, os achados podem não se aplicar a outras populações, disse o Dr. Wilcox.
Como os pesquisadores usaram dados registrados, eles apenas incluíram resultados de pacientes tratados em cenários hospitalares, e eles também excluíram pacientes com hospitalizações psiquiátricas anteriores.

"Essas limitações podem ser resultantes de uma estimativa de risco mais conservativa do que é realmente o caso," comentou a Dra. Manpreet Kaur Singh, professora assistente de psiquiatria no Department of Psychiatry and Behavioral Sciences na Stanford University School of Medicine na California.

Dr. Singh notou que poucos estudos olharam para a efetividade das intervenções para risco de suicídio entre as crianças de pais que cometeram suicídio. “Nós não tempos evidencia que uma intervenção cedo possa funcionar, mas intuitivamente é algo que pensamos que irá pagar dividendos para essas crianças," ela disse.

Tais intervenções incluem base individual ou aconselhamento familiar para ajudar crianças através do processo de luto e a avaliação sendo realizada para doenças psiquiátricas. "Em crianças, os primeiros sintomas de estar em risco para a doença psiquiátrica são declínios na função — na escola, em relacionamentos aos pares, ou relações de família" ela disse.

"Quando você vê um lapso no funcionamento, você tem que engajar a família em uma conversação sobre os riscos e benefícios do tratamento, "adicionou a Dra. Singh.

J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2010;49:514-523.

domingo, 31 de outubro de 2010

Índice de suicídios no Brasil é problema de saúde pública

No Brasil, 25 pessoas se matam por dia, fazendo do país o 11º colocado no ranking mundial de suicídios, segundo dados da Organização Mundial da Saúde. As informações foram divulgadas pelo psiquiatra Neury José Botega, professor da Unicamp, durante a 28ª edição do Congresso Brasileiro de Psiquiatria, que escolheu a prevenção do suicídio como um dos temas principais. O encontro, em Fortaleza, vai até sábado (30).

"A questão do suicídio é realmente um problema de saúde pública porque temos um alto índice de pessoas que estão passando por muito sofrimento e que poderiam ter sido ajudadas caso não tivessem se matado", afirmou à Folha.

Segundo ele, os dados de suicídio podem ser ainda maiores do que os divulgados oficialmente, já que não é raro que muitos casos acabem recebendo outra caracterização na certidão de óbito: "O medo de não receber o dinheiro do seguro pode fazer com que muitas famílias pressionem os médicos a atestar falência múltipla dos órgãos em vez de suicídio".

Botega afirma que o aumento dos casos de depressão e de consumo de álcool e drogas são sinais preocupantes e que podem justificar o aumento dos índices de suicídio, principalmente entre adultos jovens: "São pessoas entre os 25 e os 40 anos que estão numa fase produtiva da vida. A competitividade e a solidão nas grandes cidades são alguns dos pacotes de alta tensão social que favorecem a uma sensação de desamparo e aumentam as formas alternativas de sentir prazer, como recorrer às drogas e ao álcool."

Segundo ele, os sinais de que alguém está cogitando tirar a própria vida não podem ser ignorados: "Aqui não vale a máxima do 'cão que ladra não morde'. Muitas vezes a pessoa dá sinais, fala até mesmo vagamente em se matar, mas acaba não sendo levada a sério".

ESTRATÉGIA

O psiquiatra apresentou no congresso dados de uma pesquisa internacional realizada pela OMS de que ele participou, comparando estratégias de prevenção ao suicídio.
Ao todo, foram analisadas 1.867 pessoas que tentaram o suicídio em cinco cidades do mundo. Após terem alta do hospital, metade delas recebeu o tratamento usual --mero encaminhamento a um serviço de saúde-- e a outra metade teve um acompanhamento intensivo, com entrevistas motivacionais e contatos telefônicos periódicos por 18 meses.

Ao final do experimento, apenas 0,2% das pessoas que receberam acompanhamento intensivo chegaram a praticar o suicídio, taxa dez vezes menor do que no grupo que recebeu o tratamento usual. "O contato telefônico periódico criava uma rede de apoio e ajudava a pessoa que já tinha tentado se matar a ressignificar o que havia acontecido na vida dela", diz.
 
http://gazetaweb.globo.com/v2/noticias/texto_completo.php?c=215548

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

terça-feira, 1 de junho de 2010

Steve Jobs minimiza taxa de suicídio em empresa que fabrica o iPhone

Questionado por e-mail sobre os casos recentes de mortes na Foxconn, que fabrica o iPhone na China, Steve Jobs, executivo-chefe da Apple, respondeu que a taxa de suicídio na empresa é muito menor do que a média no país asiático, segundo o site MacStories.

"Embora todo suicídio seja trágico, a taxa de suicídio da Foxconn é bem menor do que a média na China", escreveu Jobs, em resposta ao fã da marca Jay Yerex.

Jobs concluiu a mensagem com a frase "We are all over this", que foi entendida erroneamente por Yerex como "estamos fartos disso" --na verdade, o fundador da Apple quis dizer que a empresa estava se debruçando sobre os casos.


Contrariado, Yerex questionou a expressão e recebeu uma segunda resposta de Jobs: "Você deve se educar. Nós fazemos mais do que qualquer outra empresa no planeta".

Yerex replicou dizendo que havia achado a frase em questão confusa ou ofensiva.

Em uma terceira mensagem, Jobs escreveu: "É uma expressão americana que quer dizer que isso tem nossa atenção completa".

Em 26 de maio, foi registrado o décimo suicídio de um funcionário da Foxconn.

As mortes chamam atenção para as práticas de trabalho da empresa, unidade da taiwanesa Hon Hai Precision Industry, cujos clientes incluem Apple, HP e Sony Ericsson.

A Apple e outros clientes disseram que estão investigando as condições de trabalho na Foxconn, que enfrenta críticas sobre sua cultura corporativa secreta.

http://www1.folha.uol.com.br/tec/744032-steve-jobs-minimiza-taxa-de-suicidio-em-empresa-que-fabrica-o-iphone.shtml

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Órfãos de suicidas

Por Maria Laura Neves

"Estava assistindo televisão e conversando ao telefone com uma amiga quando minha mãe passou por mim. Trocamos olhares, mas não nos falamos. Ela foi para o quarto e se trancou. Minutos depois, ouvi um barulho muito forte e um gemido. Chamei por ela, mas ninguém respondeu. Arrombei a porta e me deparei com minha mãe daquele jeito... caída na cama, com um tiro no peito... Num ato de desespero, tentei reanimá-la. Mas seus os olhos estavam entreabertos e as pupilas dilatadas... Eu não podia fazer mais nada. Fechei suas pálpebras e, em choque, fui procurar ajuda.” Arianne Menezes, 27 anos, é paulistana. Fisioterapeuta, ficou órfã de mãe aos 18.

“Eu tinha 13 anos e estava de férias em Botucatu, na casa do meu pai, quando acordei com os gritos da minha avó, que morava com ele. Levantei da cama e corri para ver o que tinha acontecido. Cheguei na sala e ela me impediu de avançar. Dei a volta pela cozinha e, ao chegar na varanda ... Dei de cara com o corpo do meu pai pendurado... Ele enrolou o cordão de capoeira no pescoço, na viga do telhado... e tirou os pés do chão. Se tivesse esticado as pernas teria sobrevivido... Desesperado, o abracei e tentei levantá-lo. Queria tirá-lo dali. Comecei a perguntar porque tinha feito aquilo comigo. Fiquei ao lado do corpo até a polícia chegar.” Daniel Aragão, 27, também é paulistano e professor de capoeira — a mesma profissão do seu pai.

As reticências dos depoimentos acima não são um recurso de estilo. Denotam um silêncio incômodo, uma lembrança dolorosa. Mostram a dificuldade que os filhos de suicidas têm em falar sobre a morte dos seus pais. “Faz quase 15 anos e até hoje procuro palavras para dizer como meu pai morreu”, diz Daniel. Embora as imagens do suicídio sejam recorrentes nos pensamentos desses jovens, eles dificilmente falam sobre elas. Quando o fazem, evidenciam o desconforto na linguagem corporal: franzem o cenho, tamborilam os dedos e se emocionam. “Tento lembrar da minha mãe viva, mas é inevitável. Quando penso nela, vem a imagem do seu corpo na cama. Não queria que fosse assim”, diz Arianne.

“Quando uma pessoa comete suicídio, as respostas vão com ela” — Nancy Rappaport

O trauma do suicídio é tão profundo e difícil de ser elaborado que a psiquiatra infantil americana, Nancy Rappaport, 47 anos, cuja mãe se matou quando ela tinha 4, decidiu escrever um livro sobre o assunto e transformou o próprio luto em um estudo sobre o impacto desse tipo de morte na vida dos filhos de quem o comete — In her wake (O despertar dela), lançado no fim do ano passado nos Estados Unidos, sem previsão de chegada ao Brasil. Na obra, Nancy também faz uma investigação sobre a vida da mãe. “Cresci com muitas questões: entender quem ela era, saber o quanto me amava e por que fez aquilo. Quando uma pessoa comete suicídio, as repostas vão com ela”, diz. “No meu trabalho, percebi que filhos de suicidas tinham dúvidas parecidas, que acabavam sufocadas porque ninguém falava delas. Não quero que ninguém sinta o que senti e, por isso, resolvi escrever o livro.”

As primeiras reações

“Quem vai me levar na escola, quem vai fazer o jantar, quem vai cuidar de mim quando eu estiver doente?” Essas são as primeiras perguntas que vêm à cabeça de uma criança quando recebe a notícia de que seu pai ou mãe se matou. A maneira que lidam com a informação varia com a idade. “Elas só conseguem entender que a morte é um fim irreversível entre os 10 e 12 anos. Antes disso, não concretizam essa informação”, diz a psiquiatra Alexandrina Meleiros, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. Um estudo do psicólogo americano especializado em órfãos de suicidas Albert Cain, mostra que crianças de até 6 anos reagem como qualquer outro órfão e só vão entender que seus pais tiraram a própria vida anos mais tarde.

É comum que crianças dos 7 anos em diante neguem o suicídio dos pais. Alguns chamam de mentiroso o parente que deu a notícia. Outros simplesmente não registram o que ouviram e criam suas próprias versões para a morte. “Em geral, essas crianças têm raiva de quem deu a notícia. É um mecanismo psíquico necessário para entender o que realmente aconteceu”, diz a psicóloga Maria Helena Pereira Franco, do Instituto Quatro Estações em São Paulo, especializado em luto. Quando as crianças aceitam e entendem o suicídio, costumam se sentir culpadas e abandonadas, além de terem medo de que o genitor que sobreviveu possa se matar. Costumam desenvolver um terror noturno ou ter uma regressão de comportamento. “Perdi a confiança nas pessoas depois da morte do meu pai. Se ele, que me amava, se matou, porque outros não podem fazer a mesma coisa? Me apeguei à minha mãe — o maior medo da minha vida é perdê-la”, diz Daniel.

Quem se depara com o corpo do pai ou mãe mortos costuma ficar em choque e, na sequência, sentir pavor e raiva. Depois que fechou os olhos da mãe, Arianne desceu as escadas do sobrado onde morava. “Minha primeira reação foi procurar quem estava mais perto — fui chamar meu irmão, na época com 14 anos, que estava brincando na casa de um vizinho”, diz Arianne. “Quando dei a notícia, ele ficou atônito, começou a rodar em círculos, falando sozinho.

Perguntava para si mesmo, por que, como. Ligamos para o meu pai, que veio para casa. Ele chamou os bombeiros e, quando chegaram junto com a polícia, a casa ficou aberta. De repente começaram a chegar curiosos. Uma vizinha me disse que a decoração da minha casa era bonita. Aquilo me irritou tanto que parti para cima dela, para bater mesmo. Como podia dizer aquilo num momento como aqueles? Tiveram que me segurar. Chorei um pouco quando conversei com o delegado e expliquei como tinha encontrado o corpo dela. Minha ficha demorou para cair. Não me deixaram ver mais nada, não vi levarem ela embora. Naquela noite, fui para casa de uma amiga e não preguei o olho. Passei três noites fora e só consegui dormir de exaustão dois dias depois. Não chorei mais, nem no velório, parecia que eu estava anestesiada. Não queria ir ao enterro, mas meu pai pediu para eu me despedir dela. Na hora em que ela foi enterrada, me dei conta do que tinha acontecido. Desabei, chorei copiosamente e tive que sair no meio. Não consegui ver aquilo até o final.”

Daniel conta que, momentos após encontrar o corpo do pai, deu tantos chutes em uma mureta de casa, que a destruiu. “Me perguntava por que, por quê. Com raiva, não conseguia chorar. Achava que ele tinha sido covarde. Não me lembro bem como, os parentes e amigos começaram a chegar e me pediam calma. Todo mundo estava chorando mas eu não conseguia derramar uma lágrima. Furioso, eu gritava que ele não gostava mais de mim, que sabia exatamente o que tinha feito. Eu queria tirá-lo dali, como se sem a corda no pescoço ele pudesse voltar a vida. Pedia ajuda para desamarrá-lo, mas não podíamos mexer no corpo até a polícia chegar, me pediram para esperar. Na semana que se seguiu, continuei em Botucatu — meu pai mudou para lá depois que se separou da minha mãe, quando eu tinha dez anos, para dar aulas na Unesp e eu ia visitá-lo sempre. Passava todas as férias, os feriados, na casa dele... Acompanhei o velório, o enterro, mas estava com tanta raiva que não conseguia chorar. Demorei para entender, de fato, o que tinha acontecido e colocar as emoções para fora.”

Sentimento de culpa

A mãe da psiquiatra Nancy, que deu seu nome à filha, planejou o suicídio. Depois de dar à luz seis filhos, desenvolveu uma depressão. Morreu ao tomar dezenas de soníferos. “Tive o mesmo sonho durante anos. Eu era criança e entrava no quarto de mamãe. Ela estava na cama e só eu via o vidro de pílulas ao lado dela, mais ninguém conseguia. Depois, eu saía do quarto.” O tormento que o pesadelo trazia a Nancy estava ligado ao sentimento de culpa que ela carregava. “Só fui conversar sobre o suicídio depois de adulta. Na infância, lembro do meu pai dizer que ela ficou deprimida depois que nasci. Encarei a morte dela como minha responsabilidade. ‘Se eu não tivesse nascido’, pensava, ‘ela não teria se matado’. Sem os devidos esclarecimentos, muitas crianças agem da mesma forma. Fantasiam explicações e geralmente atribuem a culpa do suicídio para si.

Os pais de Daniel e Arianne não deixaram bilhetes nem deram sinais de que algo doloroso se passava com eles. A falta de explicações e de conversa também fez com que os jovens se culpassem pela morte deles. Daniel diz que só se libertou desse sentimento no final da adolescência. “Meu pai parecia muito feliz. Deu uma festa dois dias antes de morrer, parecia animado. Naquela noite, ele chegou tarde em casa. Eu estava dormindo, mas levantei para falar com ele, que estava comendo e assistindo televisão. Quando me viu, me puxou para perto dele e abraçou. Me deu um beijo, me chamou de doutor Daniel — como gostava — e mandou voltar para cama. Passei a adolescência me penitenciando por ter acatado. Achava que se tivesse passado a noite com ele, nada teria acontecido. Me livrei desse sentimento aos 16 anos, quando ouvi uma fita cassete com uma gravação dele tocando viola e dizendo coisas bonitas. Naquele momento, me dei conta de que meu pai tinha tirado a própria vida por vontade e que eu não podia ter feito nada. Chorei muito. A partir daí, passei a chorar quase todas as vezes em que falo dele.”

Arianne também se perguntava se poderia, de alguma forma, ter desagradado a mãe, o que poderia ter feito para evitar a tragédia. “Foi um choque para nossa família. Ela e meu pai estavam planejando uma segunda lua de mel. Naquele dia, estava meio abatida, chorou. Quando percebi que ela estava meio para baixo, perguntei se estava tudo bem. Como ela respondeu que sim, não dei muita atenção”, diz. “Mas durante muito tempo me questionei se não deveria ter perguntado mais, ter ficado do lado dela naquela hora. Me perguntava qual era minha participação na tragédia e por que ela tinha feito aquilo comigo se amava tanto os filhos como dizia. Depois, me dei conta de que nunca teria a resposta.”

A vida sem eles

“Passei a me sentir solitário nos anos que se seguiram à morte do meu pai. Ficava muito quieto, fechado. A sensação que eu tinha era de ter me trancado no meu quarto e que ali era o meu mundo. Continuei indo à escola, fazendo minhas atividades. Mas quando chegava a hora da saída, pensava que ele não iria mais me buscar como já tinha feito outras vezes, quando vinha a São Paulo. Parecia que tudo tinha ficado mais difícil — lembrava dele nos momentos mais improváveis. Não tinha vontade de ir às festas do colégio, da família. Chegava a ficar uma semana sem falar com ninguém. Até hoje, mesmo nos momentos em que fico feliz, sinto uma tristeza enorme. Porque quando acontece uma coisa muito boa, eu queria que ele estivesse vivo para dividir a alegria comigo”, diz Daniel.

Para verificar como reagem os filhos de suicidas, um grupo de médicos americanos liderado pelo psiquiatra infantil David Brent comparou o comportamento deles com o de outras crianças e adolescentes que perderam os pais repentinamente, em um acidente ou de forma natural. Enquanto as taxas de depressão entre os membros dos dois últimos grupos se estabilizaram cerca de um ano e meio depois da perda dos pais, a dos filhos de suicidas continuou a subir. Para a psiquiatra Nancy, existem duas explicações para esse fenômeno. A primeira é que a depressão pode surgir por causa do sentimento de culpa e de abandono. A segunda pode ser genética. Quase 50% das pessoas que tentam se matar têm algum transtorno de humor ou de personalidade.

Crianças e adolescentes que sofrem esse tipo de trauma podem apresentar dificuldades de aprendizado, além dos transtornos emocionais, segundo a psiquiatra Alexandrina. Isso porque, no momento de tensão ou perigo, o cérebro recebe altas doses de cortisol, como parte do processo da reação de defesa. Essa superdosagem do hormônio pode lesionar o hipotálamo e gerar sequelas. “Quanto mais cedo essas crianças fizerem tratamento psicológico e psiquiátrico, maior é chance de o cérebro se reorganizar e evitar prejuízos futuros.”

Arianne diz que se sentiu forte nos meses que se seguiram à morte da mãe, até perceber que não conseguia mais manter-se concentrada. Ao sentir que o trauma havia gerado uma mudança no seu comportamento, foi procurar ajuda. “Depois do enterro, achei que tinha de ser a forte da família porque meu pai e meu irmão estavam muito abalados. Assumi papéis dela, mandava meu irmão escovar os dentes, ir para cama. Evitava pensar no que tinha acontecido. Sempre fui brincalhona e depois que ela morreu, vivi uma espécie de alegria exagerada. Via graça e brincava com tudo. Tanto que nenhum dos amigos da faculdade desconfiou do que tinha acontecido. Passei meses naquele estado de excitação até perceber que estava com um déficit de concentração. Esquecia os trabalhos e o conteúdo das aulas. Não absorvia nada, nunca terminava uma tarefa. Seis meses depois da morte da minha mãe, fui fazer terapia. Foi só aí que comecei a falar do assunto com alguém. Ajudou demais, voltei a ter centro”, diz Arianne. “Tem dias que eu não acordo bem — e geralmente é porque estou com saudades dela. Nos Natais, fico triste, uns minutos em silêncio. Mas só. Não fiquei com raiva dela. Fiquei com raiva de Deus. Se Ele realmente existia, por que tinha feito aquilo comigo?

Demorei sete anos para aceitar que tinha raiva. Depois de trabalhar esse sentimento, me dei conta de que não conseguiria viver sem acreditar em nada. Sem a crença em algo maior, minha vida perdia o sentido. Sonhei poucas vezes com minha mãe. Geralmente, ela me abraça e eu sinto a presença física mesmo. Não lembro de diálogos. Os sonhos acontecem quando estou com algum problema. Ela vem me dar conforto mesmo, sinto o toque físico dela. Inclusive, é disso que eu sinto mais falta. Tem coisas que a gente só conversa com mãe. Minha família convencional acabou. Vejo pouco meu pai e meu irmão, o que me incomoda. Parece meio careta, mas sinto falta de ter esse núcleo. Como o sofrimento foi solitário, acabamos nos tornando meio egoístas.”

Sublimação da dor

Tanto a psiquiatra Nancy como Daniel partiram para a pesquisa para descobrir quem eram seus pais. Nancy escreveu o livro. “Eu sabia pouco sobre minha mãe. Não sabia sequer qual era a cor predileta dela. Ao pesquisar com parentes, amigos e jornais da época, descobri que ela era uma líder comunitária com aspirações políticas. Tinha depressão e o fato de ter tirado a vida não significa que não me amava. Graças a esse trabalho pude ter, de alguma forma, um longo contato com ela”, diz Nancy.

“Fazer algo produtivo com a tragédia é o que nós chamamos de sublimação da dor” — Alexandrina Meleiros

Daniel, que prepara um documentário, descobriu que o pai foi um capoeirista importante, responsável por levar o esporte para o exterior. “Aos 18 anos, comecei a pesquisar. Perguntava o que ele fazia e do que gostava para amigos e parentes; pedia para me contarem histórias. Descobri que ele também era músico”, diz. “Comecei a praticar capoeira para dar continuidade ao que ele fazia.” Daniel foi divulgar o esporte na Ásia. “Fazer algo produtivo com uma tragédia é a sublimação da dor”, diz Alexandrina.
Arianne conheceu bem a mãe. “Ela era pedagoga, parou de trabalhar para cuidar da família. Era linda e super vaidosa. Fico satisfeita com os valores que ela passou. Poderia ter ficado depressiva e rancorosa com o que aconteceu, mas tenho uma profissão, me sustento e, principalmente, busco a felicidade. Penso na minha mãe todos os dias. É claro que sinto uma saudade imensa. Mas acabou apenas para ela. Eu continuo aqui.”

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