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quarta-feira, 20 de junho de 2012

Quando os santos de casa realizam seus milagres

Na intercessão entre a psiquiatria e a antropologia, livro reúne ensaios e artigos de Antônio Mourão
Desde pequeno, Antônio Mourão gostava de ouvir histórias de vida. Ainda menino, durante as visitas à família do pai, em Crateús, passava parte do tempo na mercearia de um tio homeopata, que, segundo se dizia na vizinhança, escolhia o composto adequado.

Tais experiências, embora precoces, certamente influenciaram o caminho profissional de Mourão, que não apenas se tornou médico (e escolheu a psiquiatria como especialidade), mas trilhou caminhos pouco ortodoxos dentro do campo, a partir de uma segunda formação, em Antropologia. Após formar-se em medicina na Universidade Federal do Ceará, concluiu estudos na famosa Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, de Paris (França).

Parte dessa trajetória pode ser conhecida no livro “Psiquiatria – Outros olhares”, a ser lançado hoje, na Livraria Cultura. Nele, Mourão explora principalmente os laços que unem a psique humana aos diferentes contextos socioculturais nos quais os sujeitos estão inseridos, a partir de uma abordagem denominada etnopsiquiatria. 

Segundo o autor do livro, esta corrente não se opõe à tradicional abordagem medicamentosa, mas a complementa.

A etnopsiquiatria (também chamada de psiquiatria social) fundamenta-se no reconhecimento das diferenças entre indivíduos, ao considerar tanto a dimensão psíquica quanto a cultural – nesse último caso, especialmente de aspectos relacionados às relações sociais, de identidade e de situações vividas ao longo da vida.

“Por exemplo, um paciente esquizofrênico do interior do Ceará não adoece do mesmo modo que um esquizofrênico em Tóquio, no Japão, embora a doença tenha um conteúdo genético. Enquanto o segundo pode falar que está sendo perseguido por monstros de jogos eletrônicos, o primeiro pode relatar demônios ou entidades da cultura popular”, explica Mourão “Outra diferença: já tratei padres e freiras com depressão. Eles choram, lamentam, mas nunca falam em suicídio, por conta dos preceitos do catolicismo”, frisa o médico.

Mourão conheceu a etnopsiquiatria na Europa, onde estudou e trabalhou após formar-se em medicina. A primeira experiência foi no Hospital de Saint Luc, da Universidade Católica de Louvain, Bélgica, onde conheceu alternativas de tratamento que substituíam as práticas de uma psiquiatria então fundamentalmente asilar. No lugar de confinamento e eletrochoques, Mourão conheceu uma unidade de psiquiatria integrada a um hospital universitário, além de uma equipe integrada com aquelas de outras especialidades.

Paralelamente, conheceu o trabalho de George Devereux, que ministrava seminários de etnopsiquiatria em Paris. Anteriormente, já havia tido contado com os livros do professor François Laplantine, outro nome relevante na área.

Casos
A fim de tornar o conteúdo mais claro e acessível, Mourão tomou o cuidado de permear o livro com relatos de pacientes atendidos (com os nomes modificados ou suprimidos). Como, por exemplo, o de um jovem da Paraíba, que, aprovado em concurso público, mudou-se para a cidade cearense de Paracuru. “Lá, ele começou a adoecer, não dormia direito, tinha pesadelos e taquicardia. Tudo isso gerou ainda um desgaste na relação com a esposa”, lembra Mourão.

“Ele já tinha procurado um cardiologista e outros especialistas, quando chegou até mim. Em conversa, contou-me que sua família na Paraíba era umbandista, e que, antes de se mudar, ele estava se preparando para ser pai-de-santo. Em Paracuru, ao contrário, era um total desconhecido. Sugeri, então, que ele abrisse seu terreiro na cidade. Os olhos do jovem chega brilharam. Eventualmente, quando montou o espaço, os sintomas desapareceram”, conta o médico.

Segundo Mourão, o relato demonstra a relevância peculiar da religião na vida do povo brasileiro. “A cultura tem ferramentas que, se corretamente utilizadas, ajudam a pessoa a ficar integrada e de bem com ela mesma e com os outros. A religião é uma delas”, comenta o médico.

Em outra passagem, na introdução do livro, o psiquiatra recorda a ocasião em que questionou a ausência de leitos com rede para pacientes nordestinos, no lugar da tradicional cama hospitalar. “No Nordeste, dorme-se muito de rede, ao ponto de alguns pacientes internados ficarem com medo de cair da cama e isso interferir na qualidade do sono. Tanto que vi inúmeras vezes médicos incluirem no prontuário remédios para eles dormirem”, conta. “É um detalhe que revela como a cultura tem a ver com a dimensão emocional”, complementa.

Compilação
Outro capítulo importante do livro trata da terapia familiar sistêmica, segundo a qual é indispensável observar o todo e não as partes do sistema familiar, e com a qual Mourão teve contato aprofundado também na Bélgica. Lá fez parte da primeira turma da terapeuta de família Mony Elkaim.

Por fim, no terceiro capítulo, Mourão aborda alguns temas atuais no campo da psiquiatria, como a perda e o luto, a erotização precoce de crianças e as drogas. Boa parte dos textos do livro é oriunda de artigos publicados ao longo dos anos de carreira do autor na revista eletrônica Psychiatry On Line Brasil. “Mas muitas pessoas me pediam cópias impressas, então resolvi juntar tudo em um livro, acompanhado de uma introdução, onde resumo meu itinerário profissional”, detalha.

De fato, é na introdução onde melhor resume a essência da obra. “Uma parte de mim não acredita em pai-de-santo, em umbanda, em rezadeira, isso enquanto sou psiquiatra. Pois é uma ciência que tem suas referências. Mas, como sou brasileiro, nordestino, do Ceará, não posso desconhecer essa realidade. Eu tenho que saber que caminho com essas duas identidades. Uma não precisa destruir a outra”, expressa no texto.

Segundo ele, o livro destina-se a tanto aos profissionais quanto às pessoas que gostam do assunto, no sentido de “vislumbrar outros olhares, em vez de ficar preso unicamente à questão medicamentosa, à psicofarmacologia”, complementa na entrevista.

LIVROPsiquiatria – Outros olhares
Antônio Mourão Cavalcante
Cia. dos Livros Editora
2012, 184 páginas
R$ 39,90

Mais informações:
Lançamento de "Psiquiatria – Outros olhares". Hoje, às 19 horas, na Livraria Cultura (Av. Dom Luís, 1010, Meireles – Shopping Varanda Mall). Contato: (85) 4008.0800

Adriana MartinsRepórter

domingo, 14 de novembro de 2010

Livro - Manejo do paciente psiquiátrico grave

Gente, um dos capítulos deste livro foi escrito por mim. Encontrei esta resenha sobre o livro na Revista Brasileira de Psiquiatrica - escrita pelo Pedro Altenfelder. Não resisti, e postei no blog... rsrsrs

O livro Manejo do Paciente Psiquiátrico Grave versa a respeito dos variados enfoques e intervenções aplicados por uma equipe multidisciplinar a pacientes do Centro de Atenção Integrada a Saúde Mental da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (CAISM), referência em manejo de casos psiquiátricos de elevado grau de complexidade.

Organizado por Marsal Sanches, Ricardo Riyoti Uchida e Sergio Tamai, o livro se divide em duas seções: Aspectos Gerais e Tópicos Especiais. Essas seções são compostas por capítulos elaborados tanto por psiquiatras como por profissionais de psicologia, enfermagem, terapia ocupacional e serviço social do CAISM, o que confere ao texto um interessante formato diversificado em olhares e conceitos, muito congruente e sintonizado ao desenho de uma equipe de saúde mental que se propõe a tratar pacientes psiquiátricos complexos em sua apresentação psicopatológica e manejo.

Na primeira seção, são abordados temas relacionados à conceituação e ao tratamento de pacientes graves tanto em regime de internação como em processo de estabilização e reabilitação sob o enfoque de hospital-dia. Encontramos aqui o referencial teórico-prático, permeado pela importante conceituação de manejo de caso que orienta a atuação multiprofissional do referido serviço, além da fundamentação da abordagem familiar, terapia ocupacional e psicoterapia aplicada a esse perfil de pacientes denominados como portadores de transtorno mental grave (TMG). Finalizando, encontramos um capítulo que foca a intervenção psicofarmacológica - seus riscos, estratégias de abordagem e aderência, relação custo-benefício e variáveis do tratamento.

A seção seguinte é composta por capítulos que possuem uma maior especificidade, como o enfoque de pacientes graves em relação ao uso de substâncias psicoativas, o manejo do paciente idoso portador de TMG e dos pacientes com transtorno de personalidade, incluindo um interessante relato de seu impacto tanto emocional como financeiro às equipes de saúde mental. Não poderia deixar de citar também nessa seção o elucidativo capítulo de emergências psiquiátricas, assunto em relação ao qual o CAISM se apresenta como referência na formação de profissionais de saúde bem como no manejo de casos clínico-psiquiátricos graves em seu pronto socorro; encontramos aqui a abordagem de técnicas de contenção tanto física como farmacológica, bem como o perfil diagnóstico de pacientes que se encontram em estado de emergência psiquiátrica. Finalizando a seção, temos a discussão das comorbidades clínicas, gestação e puerpério, bem como dois capítulos que trazem como tema os aspectos psicodinâmicos e éticos relacionados ao atendimento do paciente grave.

O livro revela seu valor à medida que nos fornece um referencial teórico e vivencial necessário a abordagem e entendimento do paciente psiquiátrico grave, apresentando como modelo uma instituição que possui larga experiência na abordagem de casos complexos sob o modelo multidisciplinar.

Como profissional que atua em sua prática diária junto à equipe multidisciplinar, focando pacientes em regime de hospital-dia, a grande maioria portadora de TMG, não posso deixar de citar o livro Manejo do Paciente Psiquiátrico Grave como importante referência na literatura especializada a profissionais da área da saúde mental que possuam em seu campo de atuação o interesse por tal perfil de pacientes ou que queiram de forma clara e aprazível enriquecer seu conhecimento a respeito do assunto.

Pedro Altenfelder Silva

Centro de Reabilitação e Hospital-Dia, Instituto de Psiquiatria, Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, SP, Brasil

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Revista Autismo

Revista Autismo - 1a revista sobre Autismo em língua portuguesa!

Informação gerando ação - Revista Autismo